Projetos da UFMG ajudam Mariana a se recuperar do desastre de 2015

Em novembro de 2015, o município de Mariana foi palco da maior tragédia ambiental do Brasil. A barragem de Fundão, da mineradora Samarco, rompeu-se e despejou cerca de 40 milhões de metros cúbicos de lama e rejeitos de minério de ferro. Um grande volume de sedimentos foi carreado para a Bacia do Rio Doce, contaminando os cursos d´água locais e 228 municípios em Minas Gerais e no Espírito Santo. Os sedimentos atingiram as matas ciliares e ainda estão em suspensão nos rios, comprometendo a vida animal e vegetal.

Rapidamente, a UFMG se mobilizou e lançou o Programa Participa UFMG, iniciativa de engajamento em questões relativas ao pós-desastre que recebeu a adesão de 60 professores de diversos campos que atuam com ensino, pesquisa e extensão, e criou o Observatório Interinstitucional de Mariana-Rio Doce, em parceria com as universidades federais de Ouro Preto (Ufop) e do Espírito Santo (Ufes).

Sinal de vida
Há dois anos, grupo coordenado pela professora Maria Rita Scotti Muzzi, do Departamento de Botânica do ICB, busca estratégias para recomposição das matas ciliares e da biodiversidade na região do desastre. O projeto começou com uma iniciativa de pequeno porte – a revitalização de uma praça no município de Barra Longa, com base em sugestões recolhidas com os moradores – e hoje alcança as margens do rio Gualaxo do Sul, localizado entre a foz do Córrego do Fundão e a confluência do Córrego Laranjeira. O Gualaxo do Sul é a fronteira natural dos municípios de Mariana e Diogo de Vasconcelos.

“Na primeira etapa, diagnosticamos o impacto no terreno e descobrimos, principalmente, grandes quantidades de sódio e éter-amina, substâncias altamente tóxicas usadas no beneficiamento do minério. Na sequência, selecionamos plantas da Mata Atlântica tolerantes a esse solo contaminado e micro-organismos capazes de decompor os produtos tóxicos para reduzir esse impacto. Daí, usamos esses micro-organismos para reduzir a presença das substâncias”, explica Maria Rita Muzzi.

Os resultados do projeto Modelo de recuperação da paisagem da mata ciliar e de áreas urbanas sob impacto dos rejeitos da barragem da mineração Samarco são promissores. “Há plantas de até 3 metros de altura na floresta próxima ao Rio Gualaxo, e os indicadores comprovaram que houve uma redução significativa da éter-amina e do sódio. Registramos também aumento da fertilidade do solo, da estabilidade da área e da drenagem. Com base nessas evidências, podemos afirmar que é possível, sim, recuperar a bacia”, garante a professora.

O objetivo agora é desenvolver outros modelos para testes,com base nas demandas da comunidade e buscar estratégias para recuperar a produtividade do solo. Participam do projeto alunos de graduação, pós-graduação e professores do Departamento de Química do ICEx, alunos e ex-alunos dos cursos de Ciências Biológicas do ICB e do Unibh. Os recursos são provenientes do edital Participa UFMG Mariana-Rio Doce e da Fapemig.

Afetações
Os impactos do desastre de Mariana na vida das pessoas vão muito além do que se convencionou chamar de danos morais ou materiais, pois interferem nas relações afetivas e nas dinâmicas de sociabilidade de famílias, amigos e parentes. “Laços sociais foram rompidos e, de alguma maneira, essas categorias não conseguem abarcar uma série de experiências vivenciadas pelos atingidos”, argumenta a professora Raquel Oliveira Santos Teixeira, do Departamento de Sociologia da Fafich e subcoordenadora do projeto de extensão O desastre e a política das afetações: compreensão e mobilização em um contexto de crise.

A equipe analisa as interações dos atingidos com as instituições, investigando, sobretudo, os encaminhamentos de processos, como negociações e deliberações de grupos de trabalho e discussões sobre reparações. Desde 2016, o grupo, coordenado pela professora Andrea Zhouri, acompanha as ações das empresas responsáveis pelo desastre, da Fundação Renova, do Ministério Público, do Estado e dos atingidos em Mariana.

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Equipe do projeto sobre políticas de afetações em área atingida pela lamaAcervo do projeto

A partir desse monitoramento que investiga tendências, padrões de ação e respostas do Estado ao desastre, o objetivo é criar instrumentos e estratégias de empoderamento dos atingidos durante o processo de negociação com vistas ao reconhecimento dos danos. “Esses instrumentos servem para tornar visíveis os danos e a natureza deles. Nesse processo de negociação, há uma tentativa de restringi-los a danos materiais ou morais. O problema é que ‘essas caixinhas jurídicas’ dificultam a apreensão da extensão dos processos vivenciados pelos atingidos”, argumenta Raquel Oliveira.

Uma das conquistas do projeto foi a inclusão de profundas alterações em questionário que seria aplicado aos atingidos por empresa terceirizada para identificar os danos. “Antes que esse questionário de 500 páginas, chamado de Programa de Levantamento e Cadastramento do Impactados (PLCI), fosse usado em massa, tivemos a oportunidade de aplicá-lo em uma família e identificar várias incoerências, inclusive perguntas que confundiam os respondentes”, relata a professora. Com base nisso, o grupo elaborou parecer solicitando uma revisão do cadastro à empresa responsável, pois os atingidos se recusaram a responder ao questionário como fora inicialmente proposto. “O cadastro foi reelaborado, e o questionário usado em Mariana acabou sendo muito diferente daquele que serviu de base para o cadastro de famílias em outros pontos da bacia”, compara a professora da Fafich.

Cartografia social
O projeto Acervos familiares nasceu por sugestão dos próprios moradores. A proposta, que envolveu 30 famílias, materializou-se por meio de quatro oficinas com o intuito de resgatar as memórias através da cartografia social. No primeiro momento, os moradores fizeram croquis dos lugares em que viviam. Em seguida, visitaram territórios atingidos e trabalharam na produção de um boletim com informações atualizadas sobre o andamento dos trabalhos.

“O desastre não termina com os termos de acordos, ele permanece em curso. Dependendo dos encaminhamentos institucionais, a tragédia se agrava. Os danos vão se acumulando justamente por conta das respostas das instituições, que, muitas vezes, são insuficientes e inadequadas, provocando ainda mais angústia e frustração”, analisa Raquel Oliveira.

Iniciado em 2016, o projeto conta com apoio financeiro do Participa UFMG Mariana-Rio Doce e da Fapemig e CNPq e envolve pesquisadores da Fafich e o Instituto de Geociências. Ele é executado por bolsistas dos cursos de graduação em Ciências Sociais, Ciências Socioambientais, Antropologia e Geografia e por estudantes de pós-graduação das áreas de Antropologia e Sociologia. Equipe da Universidade Federal do Amazonas colabora com a produção do boletim informativo.

No rádio
A Rádio UFMG Educativa veicula, nesta semana, série sobre os três anos do desastre de Mariana. A primeira matéria, que foi ao ar na última segunda-feira, abordou o trabalho de reparação de danos. Nesta terça, o tema foi o processo de reassentamento. Além disso, o programa Expresso 104,5 revelou como o projeto Cartografias do Rio Doce, da Escola de Arquitetura, tem ajudado as vítimas do desastre.

A emissora pode ser ouvida na frequência 104.5 ou em sua página hospedada no Portal UFMG.