Escória: ignorância e oportunismo

A paisagem do depósito de escória, operado pela Harsco Metals, em um terreno pertencente à CSN no bairro Brasilândia não é bonita, mas também não é perigosa. Nem para as pessoas que moram perto, nem para o Rio Paraíba do Sul. Se fosse gente, a tal pilha de resíduos de produção de aço poderia se queixar de bullying. Só porque é feia, ela é objeto de uma campanha que a vende como uma ameaça à saúde dos vizinhos e até ao suprimento de água da Capital do estado.

Só duas coisas podem explicar o rififi aprontado pela mídia da capital e também por alguns políticos em torno desse assunto: ignorância ou oportunismo. Ignorância, caso jornalistas e políticos não saibam do que é constituída a escória de alto-forno armazenada no local e se ela representa ou não risco ambiental. Oportunismo, caso a intenção seja criar uma comoção em torno do assunto para obter ganhos políticos ou de alguma outra natureza.

Na opinião do colunista, o furdunço criado nos últimos dias é resultado do aproveitamento da ignorância de alguns pelo oportunismo de outros.

O que é a escória

O colunista foi buscar a definição de escória no paper acadêmico intitulado “Caracterização da escória de alto forno proveniente de resíduos industriais visando seu uso na construção civil”, escrito por Maurílio Gomes Pimentel, Engenheiro Civil e Mestrando da UFPA, Adriano Luiz Roma Vasconcelos, Engenheiro Civil e mestre pela UFPA, Marcelo de Souza Picanço, Doutor em Geologia e Geoquímica, José Victor Brasil de Souza, Graduando em Engenharia Civil pela UFPA e Alcebíades Negrão Macêdo, Doutor em Engenharia de Estruturas, também pela UFPA.

“A escória de alto forno (EAF) é um produto gerado na fabricação do ferro gusa, sua formação ocorre pela combinação química das impurezas do minério de ferro com calcário e dolomita e as cinzas de carvão mineral, durante a produção do ferro gusa a EAF flutua no topo do ferro fundido, localizado na parte inferior do forno, dessa forma, protegendo o mesmo de se reoxidar por meio do jato de ar quente que funde através do forno, durante o reaproveitamento do forno, o ferro fundido e a escória são separados, enquanto o ferro é fluído em moldes de ferro gusa para fabricação do aço, a escória é direcionada em grandes recipientes, em seguida despejada dos mesmos”, afirma o trabalho.

Então, basicamente a escória é o que sobra quando se produz o gusa, que depois vai virar aço. Agora vamos ver a composição desse produto: “Os resultados mostraram que a EAF possui uma massa específica semelhante ao dos cimentos devido em especial a sua composição química e mineralógica. Da mesma forma a EAF apresentou predominância de óxidos de silício (SiO2), cálcio (CaO) e alumínio (Al2O3), bem como em sua mineralogia predominância de quartzo, calcita e hematita. Além disso a EAF apresenta-se como um material inerte, podendo ser utilizado dessa forma, como material suplementar ao agregado natural para a produção de concretos e argamassas”.

Em resumo, a escória não representa riscos à saúde por ser, como afirmam os cientistas, um material inerte.

Reação mergulhada em água

“E se a escória cair dentro do Rio Paraíba do Sul?”, perguntam alguns dos paranoicos de plantão. Eles enxergam um cenário apocalíptico, com a captação de água sendo paralisada a jusante de Volta Redonda, por causa do risco de contaminação. Para responder a essa pergunta, vamos recorrer ao trabalho acadêmico “Avaliação ambiental de concreto com escória de alto-forno ativada quimicamente após um ano de exposição em ambiente marinho”, de Maria Antonina Magalhães Coelho, Maristela Gomes da Silva, Fernando Lodêllo dos S. Souza, Robson Sarmento, Eliana Zandonade , Tsutomu Morimoto e José Luiz Helmer.

De acordo com o próprio trabalho, “O objetivo desta pesquisa foi avaliar o impacto ambiental, após um ano no meio marinho, de concreto de escória de alto-forno ativada quimicamente. Foram produzidos dois concretos, o primeiro como referência, utilizou 50% de escória de alto-forno e 50% de cimento CP III e o segundo utilizou escória de alto-forno ativada quimicamente com 4% de Na2O do silicato de sódio + 5% de cal. Para a avaliação do impacto ambiental foram confeccionados blocos de uma estrutura hidráulica de contenção de ondas e colocados em exposição em ambiente marinho. Ao mesmo tempo, blocos ficaram imersos em tanques com água do mar, com simulação do movimento das marés. Foram avaliadas a qualidade da água através do monitoramento do pH, durante 1 ano, e por análise química da água. Foram realizados, após este tempo, estudos de classificação e de contagem de número de organismos marinhos encontrados na superfície dos blocos que estiveram no mar. Este estudo e a comprovação da qualidade da água, indicam que o material utilizado não prejudica o meio ambiente”.

Como queríamos demonstrar. Mesmo que toda aquela escória caísse, por algum motivo, dentro do rio, não haveria risco à qualidade da água.

E nós com isso?

A escória está lá, quietinha. Não representa perigo para ninguém e pode até vir a ser útil: serve para pavimentação de estradas rurais, por exemplo. Aliás, não é segredo para ninguém que a CSN está oferecendo o material para esse fim. Aí, uma ONG de Magé resolve que o material representa risco para o Rio Paraíba do Sul e mobiliza imprensa, políticos, ministérios públicos e órgãos ambientais para pedir a interdição do local.

Em e-mail enviado ao DIÁRIO DO VALE, uma ONG chamada “Baía Viva” afirma que “Ecologistas e técnicos alertam que, por estarmos no inverno, caso haja uma chuva mais forte, pode ocorrer um evento natural denominado Tromba D´àgua, o que carreará as pilhas de rejeitos de metais pesados para o Corpo Hídrico, obrigando o Poder Público a suspender o abastecimento de água por poluição química do Corpo Hídrico. Os problemas ou impactos, estimados em larga escala, seriam:

I- Ambientais (mortandade de peixes com a perda de biodiversidade, contaminação do solo e das águas subterrâneas);

II- Na saúde pública (redução do abastecimento de água às populações) e;

III- Socioeconômicos por gerar prejuízos em todas as empresas/indústrias que dependem da utilização da água para seu funcionamento, assim como impactos à pesca e na agricultura familiar”.

Os caras conseguem juntar uma tromba d’água no inverno com metais pesados misturados na escória (que, como vimos, não é verdade) com uma mortandade de peixes, como se escória tivesse endosulfan em sua composição.

Definitivamente, se não for ignorância, é oportunismo. O colunista vai ali rir um pouco e volta na semana que vem.

Material consultado

1- Caracterização da escória de alto forno proveniente de resíduos industriais visando seu uso na construção civil

MAURÍLIO GOMES PIMENTEL1*,

ADRIANO LUIZ ROMA VASCONCELOS2

MARCELO DE SOUZA PICANÇO3;

JOSÉ VICTOR BRASIL DE SOUZA4;

ALCEBÍADES NEGRÃO MACÊDO5

1Eng. Civil. Mestrando PPGEC, UFPA, Belém-PA;

2M.e. em Construção Civil PPGEC, UFPA, Belém-PA;

3Dr. em Geologia e Geoquímica, Prof. ITEC, UFPA, Belém-PA;

4Graduando em Eng. Civil, ITEC, UFPA, Belém-PA;

5Dr. em Eng. de Estruturas, Prof. Associado IV, ITEC, UFPA, Belém-PA

Apresentado no

Congresso Técnico Científico da Engenharia e da Agronomia – CONTECC’2017

8 a 11 de agosto de 2017 – Belém-PA, Brasil

2 – Avaliação ambiental de concreto com escória de alto-forno ativada quimicamente após um ano de exposição em ambiente marinho

Maria Antonina Magalhães Coelho (1);

Maristela Gomes da Silva (2);

Fernando Lodêllo dos S. Souza (3)

Robson Sarmento (4);

Eliana Zandonade (5);

Tsutomu Morimoto (6);

José Luiz Helmer (7)

(1) NEXES – Núcleo de Excelência em Escórias Siderúrgicas, UFES, Universidade Federal do Espírito Santo, Profa. da Univix, UCL, Faculdade do Centro Leste

(2) NEXES, Centro Tecnológico da UFES

(3) NEXES, Centro Tecnológico da UFES

(4) NEXES, Centro Tecnológico da UFES

(5) Departamento de Estatística da UFES

(6) Companhia Siderúrgica de Tubarão

(7) Centro de Biomédico da UFES

Apresentado no Entac 2006 – XI Encontro Nacional de Tecnologia no Ambiente Construído – Curitiba (PR), Florianópolis, 23 a 25 de agosto

Fonte: Diário do Vale