Novo boom das commodities não precisa virar nova fogueira ambiental

Cresce novamente o apetite mundial por petróleo, minério e grãos – as commodities básicas às quais a sorte da América Latina está há tanto tempo atrelada. Após um ano de grandes escândalos e turbulência política, é quase possível ouvir o som de um suspiro coletivo de alívio. Ou seria barulho de outra coisa?

Desde as viagens do descobrimento, as matérias-primas básicas e os produtos agrícolas têm sido bênção e armadilha para a América Latina, enchendo os cofres do governo ao mesmo tempo em que, com frequência, danificam o meio ambiente e condenam as economias a florescer e implodir em seguida.

No deslumbramento da última década, havia esperanças de que a demanda da China ajudaria os países a aumentar a participação econômica em produtos com maior valor agregado, entrando no clube das nações desenvolvidas. A América Latina, no entanto, ainda depende dos grãos, dos minerais e do combustível fóssil bruto para obter metade de suas receitas com exportação, o mesmo percentual de três décadas atrás.

Será que, desta vez, o renovado apetite estrangeiro produzirá algo diferente na região? Possivelmente sim, mas não de uma forma positiva: pense em florestas derrubadas, córregos drenados e mais emissões de carbono.

É verdade que os latino-americanos estão mais zelosos do que nunca pelo meio ambiente, e menos inclinados a aceitar a cantilena oficial de que a poluição atmosférica e os troncos de árvores carbonizados são apenas danos colaterais da marcha do progresso.

Aqueles que querem evitar a “maldição das commodities” têm a seu favor a rota de colisão entre o aumento da demanda por produtos agrícolas e as mudanças climáticas. A elevação das temperaturas e as chuvas erráticas estão punindo os países em desenvolvimento e diminuindo o ritmo de avanço das plantações sobre a vegetação tropical.

“O aumento do preço das commodities significa que a dependência da agricultura vai continuar”, diz Walter Vergara, especialista em clima e florestas do World Resources Institute. “Com temperaturas mais elevadas e clima imprevisível, haverá mais pressão sobre o capital natural, como água, solo e vegetação, acabando por afetar a produtividade dessas áreas”.

Considere o café, a bebida mais popular nos países ricos e a mercadoria mais comercializada no mundo depois do petróleo. Com a expectativa de aumento consistente do consumo mundial, a pressão nas áreas produtivas subirá, ainda que o aquecimento global passe a impossibilitar o cultivo em várias regiões. A agricultura e a indústria latino-americanas “consomem o dobro ou o triplo de água em relação à média dos Estados Unidos e da China”, segundo um relatório do McKinsey Global Institute.

Olhos no Brasil

O problema é particularmente dramático no Brasil, que abriga a maior floresta tropical do mundo e onde a exploração madeireira, os assentamentos, as estradas, a mineração e a pecuária consumiram 18% da Amazônia em apenas quatro décadas.

Ainda que alguns empreendimentos mexam pouco com a floresta, a construção de uma rodovia ou a mineração acabam tendo o efeito da abertura de uma “caixa de pandora” – diz o biólogo William Laurance, da Universidade James Cook – acelerando a chegada de migrantes e aventureiros à nova fronteira.

Cientistas do Instituto para o Meio Ambiente da Universidade de Vermont calculam que o efeito devastador da mineração na Amazônia vai muito além da escavação de poços, tendo avançado sobre uma área de 11.670 quilômetros de floresta – maior do que a Jamaica – no período entre 2005 e 2015. É 12 vezes mais do que as áreas oficialmente ocupadas pela mineração.

O Brasil não é inexperiente quanto às recompensas, e os perigos, do espírito desbravador em suas fronteiras. Sob um sol escaldante, produtores-empreendedores transformaram vastas áreas de solos fracos e ácidos numa farta cesta de alimentos – proteína, grãos, café e açúcar – que pode alimentar um mundo faminto.

Os legisladores também avançaram nas duas últimas décadas na criação de um sistema para punir os fora-da-lei e, ao mesmo tempo, incentivar agricultores e pecuaristas a aumentar seus rendimentos sem destruir o meio ambiente. Ao exigir que os proprietários rurais registrem suas terras por georreferenciamento com imagens de satélite, as autoridades podem detectar a abertura de clareiras na mata e intervir imediatamente para multar os transgressores. Mais de 90% das fazendas na Amazônia já foram registradas.

Além disso, restrições mais severas e acordos do setor privado para boicotar carne e soja originárias de terras ilegais diminuíram a expansão das pastagens e reduziram a venda de bifes ambientalmente sujos. Um sistema de recompensas e punições também tem ajudado. Exemplo disso são os incentivos para recuperar solos degradados e promover tecnologias mais avançadas – como plantio direto, integração lavoura-pecuária-floresta, rotação de pastagens – de forma que os produtores possam aumentar as colheitas sem engolir novas terras ou jogar ainda mais carbono na atmosfera.

Governança do meio ambiente
“Se agricultores e pecuaristas tiverem acesso ao crédito e à tecnologia, e se o Brasil melhorar a governança das questões relacionadas ao meio ambiente, será possível conciliar produtividades mais altas com menor desmatamento”, assegura o pesquisador Judson Valentim, especialista em agricultura tropical da Embrapa no Acre. Valentim aponta que, apesar de o índice de derrubada de árvores ainda ser alarmante, a área de floresta em processo de recuperação na Amazônia já é 30 vezes maior do que o total derrubado anualmente.

Tais avanços são cruciais e, juntamente com a pesquisa de ponta, vêm ajudando a destruir alguns mitos ambientais, como o de que crescimento econômico é sinônimo de morte para a floresta. “O mercado não é inimigo da Amazônia. As empresas, em geral, cuidam bem do meio ambiente”, afirma Adalberto Veríssimo, especialista em florestas tropicais do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon).

O que preocupa, salienta Veríssimo, são os fora-da-lei que invadem terras públicas na esteira de projetos de desenvolvimento como rodovias, portos e hidrovias. “Existem áreas da União do tamanho do Texas que são pouco vigiadas. Se o Brasil amolecer no patrulhamento, o preço crescente da terra será um incentivo para mais desmatamento”, alerta.

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Nesse contexto, foram pouco auspiciosos os movimentos do presidente Temer no sentido de substituir a principal autoridade em meio ambiente do país e extinguir uma reserva nacional na Amazônia (ações descartadas após protestos públicos e repercussão negativa internacional).

O renovado apetite mundial por riquezas naturais colocará a América Latina, mais uma vez, à prova. O Brasil já mostrou que pode prover alimentos e combustíveis para o mundo. Mas somente zelando pela boa governança, dando apoio aos agricultores e cidadãos dispostos a chamar os agentes públicos à responsabilidade, será possível impedir que o próximo boom econômico se transforme numa fogueira ambiental.

*Mac Margolis é jornalista e autor do livro “The Last New World: The Conquest of the Amazon Frontier.”

Fonte: AGRONegócios