Benjamin Steinbruch: o maior desafio do Barão do Aço

Benjamin Steinbruch, de 62 anos, é um homem de fé. Sempre que alguém lhe pergunta sobre religião, o dono da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) gosta de contar a história do rabino ucraniano Menachen Mendel Schneerson, responsável por sua, digamos, entrega ao judaísmo. Conheceu-o em Nova York, nos anos 80, por insistência de amigos. Naquela época, Steinbruch não dava bola para a religião. E não estava exatamente interessado em conselhos sobre desapego material. Herdeiro do grupo Vicunha Têxtil, fundado nos anos 60 por seu pai, Mendel, e por seu tio, Eliezer, ele costumava circular de Ferrari pelas ruas de São Paulo durante a juventude. De qualquer forma, os apelos dos amigos e sua própria curiosidade a respeito da fama do Rabbi o convenceram a procurá-lo.

Deu-se, então, a seguinte conversa:

- Você é um bom pai? – perguntou o rabino.
- Sim, sou – respondeu o empresário.
- Então seja mais um pouquinho.

- Você se diverte bastante?
- Me divirto.
- Então se divirta mais um pouquinho.

- Você trabalha muito?
- Trabalho.
- Então trabalhe mais um pouquinho. Faça tudo mais um pouquinho.

A simplicidade do conselho cativou Steinbruch. “A religião vista dessa forma me ajuda a ser melhor em tudo o que faço”, disse, certa vez, a um amigo. Agora, no entanto, ele vai precisar trabalhar bem mais do que “um pouquinho” para tirar a CSN de uma crise sem precedentes. A empresa tem uma dívida líquida de R$ 22 bilhões – sem geração de caixa para suportá-la. As receitas caíram nos últimos anos e o lucro minguou, em virtude da sistemática retração das duas principais áreas de atuação da companhia, a siderurgia e a mineração. O resultado desta perversa combinação foi uma queda vertiginosa nos papéis da CSN. Hoje, ela vale R$ 7 bilhões. Há seis anos, no pico, era cotada em cerca de R$ 40 bilhões. Uma redução de 82% nesse período. Em abril de 2010, as ações valiam R$ 36,6. Em 24 de setembro, dia do fechamento desta edição, custavam R$ 4,27. No mesmo mês, a agência de classificação de risco Fitch reduziu a nota da empresa de “BB” para “B+”, mantendo a perspectiva negativa. Porque, sim, a tendência é piorar ainda mais.

Desde que Steinbruch arrematou a CSN na privatização realizada durante o governo Itamar Franco, em 1993, ele sempre se valeu de muita alavancagem para financiar a aquisição de participações em outros negócios. Foi assim também com a então Vale do Rio Doce, comprada em 1997 (e revendida em 2002), após uma dura disputa com um consórcio liderado pelo empresário Antonio Ermírio de Moraes. Do dia para a noite, Steinbruch, até então um ilustre desconhecido, irrompia a cena corporativa brasileira como o jovem controlador de duas das maiores companhias do país. Até aqui, a estratégia de se valer da mão forte de grandes bancos para expandir seu império parecia sob controle. Não mais.

Pela primeira vez, Steinbruch parece ter rompido os limites que os financistas consideram seguro: uma dívida de, no máximo, três vezes a geração de caixa – ou Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização). Em 2014, a dívida líquida da companhia era 2,71 vezes o Ebitda. De lá para cá, esse número dobrou. Hoje, a empresa deve 5,6 vezes o valor de sua geração de caixa. Um relatório do banco JPMorgan, publicado no dia 17 de agosto, dá uma ideia do que Steinbruch terá pela frente: a alavancagem da CSN, segundo a análise do banco, chegará a sete vezes o valor do Ebitda ainda neste ano.

89%
Foi o tamanho da queda do valor da ação da CSN ao longo de cinco anos. Em 2010, o papel da empresa era vendido a R$ 36,6. Em 24 de setembro, atingiu R$ 4,27

Boa parte desse cenário pode ser creditado à conjuntura. O setor de siderurgia (55% do resultado operacional da CSN) vive o pior momento dos últimos 20 anos, em decorrência da crise econômica brasileira. Os maiores clientes da companhia são os segmentos automotivo, de construção civil e os fabricantes de linha branca. Todos eles sofreram baixas importantes de vendas. Já o mercado de mineração (45% do resultado da empresa) sente o forte impacto da desaceleração chinesa e da consequente diminuição da demanda por minério de ferro. A China representa um terço das exportações da CSN, segundo a diretoria da empresa. Simultaneamente, há uma superoferta de minério de ferro no mercado mundial. Como consequência, o preço da matéria-prima caiu quase 70% desde 2011.

Há quatro anos, chegou ao pico de US$ 180 por tonelada. Agora, custa US$ 53. Em relatório do banco UBS, publicado em 9 de setembro, o analista Andreas Bokkenheuser reitera a perspectiva negativa para a CSN. “Acreditamos que a empresa vai continuar a enfrentar pressão durante 2015 e novamente em 2016, devido à continuação do enfraquecimento da demanda por aços no Brasil e o risco de enfraquecimento também nos Estados Unidos [a companhia tem operações no país e está listada na bolsa de Nova York].”

É evidente que a CSN não está sozinha nessa crise. Concorrentes como Usiminas e Gerdau também sofrem, assim como a Vale, focada 100% na mineração. As margens da CSN, segundo o relatório do JPMorgan, estão até melhores do que as das rivais. O problema é que nenhuma delas tem o peso do endividamento da empresa de Steinbruch. É justamente esse descompasso entre a entrada de recursos e os compromissos com os credores que sufocam a companhia. Steinbruch precisa agir rápido, se quiser continuar mantendo a alcunha de Barão do Aço, que a revista britânica The Economist lhe impingiu após a privatização da CSN.

À sombra do dono
Em março deste ano, o empresário contratou Paulo Caffarelli, ex-secretário-executivo do Ministério da Fazenda e ex-vice-presidente do Banco do Brasil, para comandar a pretensa virada da companhia. Comandar é forma de dizer, já que a iniciativa das principais ações na CSN sempre foram e continuam sendo função exclusiva de Steinbruch, considerado um centralizador incorrigível. Pelo menos é o que dizem diretores que já trabalharam com o empresário. Na primeira entrevista desde que assumiu o cargo de diretor-executivo, Paulo Caffarelli falou dessa característica do chefe. Ele afirma que toda noite, por volta das 10 horas, faz uma reunião com Steinbruch. “É um privilégio sentar com o dono da empresa diariamente e despachar as decisões na hora. As pessoas confundem rapidez nas decisões com centralização.” Nesses encontros, a pauta é composta por variações do mesmo tema: o plano de ação para melhorar o desempenho da companhia. A estratégia contempla quatro frentes: 1) alongamento das dívidas; 2) venda de ativos; 3) gestão do caixa; e 4) eficiência operacional.

A primeira parte já está em andamento. Em setembro, foi negociado o alongamento de parte da dívida da CSN de curto prazo. Com a Caixa Econômica Federal, o vencimento de R$ 2,57 bilhões foi estendido de 2016 e 2017 para 2018 a 2022. Com o Banco do Brasil, o pagamento de R$ 2,2 bilhões, também com quitação prevista para os próximos dois anos, foi adiado para 2020 a 2022.

Feito o acordo com os bancos, a CSN iniciou a segunda frente do plano. Colocou à venda as participações em duas hidrelétricas, ações excedentes da malha ferroviária MRS, cerca de 50% da Sepetiba Tecon (terminal de contêineres) e a Prada (fabricante de latas de aço). Também estão no pacote de liquidação de ativos os 14% de ações na concorrente Usiminas. Essa oferta, em especial, não foi só escolha do empresário. Ela cumpre uma ordem do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), que, em abril de 2014, obrigou Steinbruch a vender a cota que comprou a partir de 2010, em razão da concentração econômica.

Na tentativa de apaziguar o mercado, Steinbruch se juntou a executivos do banco Credit Suisse e foi a Nova York, em julho deste ano, para encontrar investidores. Sua intenção era mostrar que a estratégia de repassar empresas e participações está, de fato, mudando a situação da companhia. “Temos muitas opções, muitos ativos para vender… se as coisas piorarem”, disse ele. Caffarelli cita outras opções que a empresa tem, caso as ofertas já feitas não sejam suficientes para levar a dívida a um patamar razoável. “Entre as alternativas estão os R$ 2 bilhões que temos em imóveis, as concessões para exploração de minério em novas áreas e a produção de estanho em Rondônia.” Segundo ele, o alongamento das dívidas permite que a empresa possa vender os ativos com certa tranquilidade.

Os analistas financeiros consideram positivas as mudanças sinalizadas pela CSN. Mas acompanham com cautela seus movimentos. Uma coisa é o discurso. Outra, bem diferente, é a atitude. O JPMorgan, por exemplo, continua mantendo a recomendação de venda das ações da empresa.

O ceticismo do mercado é compreensível. Steinbruch sempre foi conhecido pelo apetite voraz para compras e pela resistência igualmente ferrenha em se desfazer de qualquer um de seus ativos. Implacável nas negociações, é capaz de sustentar disputas corporativas por longos anos – muitas delas resolvidas somente nos tribunais. Foi assim no processo de descruzamento da CSN com a Vale, entre 2000 e 2002. Durante esse período, houve muita briga com o então presidente da concorrente, Roger Agnelli. Foi também assim que, em 2009, Steinbruch deu o troco e venceu a disputa com a mesma rival pela mina Casa de Pedra, a segunda maior do Brasil, atrás apenas de Carajás, da Vale. Ernesto Tzirulnik, advogado da CSN desde os anos 90, diz que esse comportamento aguerrido não mudou com a idade e muito menos com as dificuldades enfrentadas neste momento. “Benjamin já passou por muitas crises. Não é agora que vai se desesperar.”

Uma delas foi com o grupo Vicunha, no fim da década de 90. A empresa tinha uma dívida de R$ 1 bilhão, consequência do crescimento extraordinário – e alavancado – que começou com a compra da CSN e seguiu com a aquisição da Light, de ferrovias, de um porto e ainda de uma companhia de gás no Ceará. Steinbruch, então, olhou para os ativos, calculou a encrenca e decidiu ceder: vendeu a Light. Reduziu, assim, o endividamento. É mais ou menos o que ele tenta fazer agora com a CSN. A diferença são “só” R$ 21 bilhões de débitos a mais na praça.

Deixa o dólar subir
As outras duas frentes do plano de ação da CSN não são visíveis para o mercado, mas têm exigido um controle minucioso de Caffarelli. Uma delas é a gestão de caixa, que consiste em buscar constantemente maneiras de aumentar a liquidez da companhia. Se por um lado a CSN perde na exportação com o baixo preço do minério, por outro, a empresa tem sido beneficiada pela alta do dólar nas operações que mantém nos Estados Unidos. “Trouxemos recentemente US$ 1,5 bilhão de lá para aplicar em CDI no Brasil, a uma taxa de 14% ao ano”, afirma Caffarelli. “Com isso, teremos uma rentabilidade de mais de R$ 700 milhões no ano.” A outra medida é a reformulação do modelo operacional das mineradoras da CSN, Casa de Pedra e Namisa. Caffarelli dobrou as linhas de produção (de sete para 14), fez ajustes técnicos, cortou custos e o resultado foi um aumento de produtividade de 40%, para 27,7 milhões de toneladas por ano.

Além disso, o portfólio da Casa de Pedra mudou. “Nos últimos anos, nossa prioridade era volume”, afirma Daniel dos Santos, diretor-presidente da mineradora. Com a redução das margens, entraram em cena os produtos premium, ou seja, as pedras com teor de ferro acima de 63%. “Eles são vendidos a um valor mais alto”, diz Santos. A busca por maior rentabilidade também passou pela revisão de mais de 3 mil contratos com fornecedores com o objetivo de aumentar o prazo de pagamento de 60 para 90 dias. Qualquer fôlego, na atual CSN, é bem-vindo.

O plano de expansão mais ambicioso da companhia, no entanto, ainda está por vir. Será a concretização da Congonhas Minérios, uma fusão entre os ativos das duas mineradoras do grupo, a Casa de Pedra e a Namisa. O projeto nasceu em 2008, quando 40% da Namisa foi vendida para um consórcio de seis empresas asiáticas, por R$ 3,2 bilhões. Na ocasião, Steinbruch prometeu uma série de medidas para aumentar a produtividade da mineradora, como a construção de uma nova planta e a expansão do porto. Com a crise econômica mundial que veio logo em seguida, a empresa cumpriu parcialmente o combinado. Não construiu a planta, mas expandiu o porto – com dois anos de atraso. Foram mais de cinco anos de negociações com o consórcio asiático. E brigas, claro. Até que, em 2013, a companhia brasileira apresentou uma nova proposta.

No fim do ano passado, os sócios concordaram com a criação da Congonhas Minérios. Pelo atual acordo, os estrangeiros tiveram sua participação de 40% diluída na nova gigante. A CSN recomprou ainda uma fatia de 3,5% dessa empresa. Restou aos estrangeiros 8,21% do negócio. Se nenhum novo obstáculo aparecer, o acordo será concluído no dia 12 de dezembro.

Segundo o analista de um grande banco, se a intenção de Steinbruch fosse liquidar a dívida da empresa de uma vez, uma saída seria vender a mineradora. Usando como base a quantia paga pelo consórcio asiático em 2008, a Congonhas Minérios valeria R$ 27 bilhões. “O problema é que se vender esse ativo, a CSN acaba”, afirma uma fonte próxima ao empresário. Quem o conhece diz que as chances de isso acontecer são nulas.

Em meio a tantos acontecimentos, Steinbruch deixou o escritório da CSN na tarde do dia 23 de setembro, uma terça-feira, e só retornou na quinta. Foi celebrar o Yom Kipur, o dia do julgamento e do perdão, na religião judaica. Durante a comemoração, é comum as pessoas se cumprimentarem com os dizeres: “chatimá tová”, que significa “boa assinatura”. Isso porque, de acordo com a religião, nesse dia Deus assina o nome das pessoas no “Livro da Vida” para que todos tenham saúde e sustento no ano que se inicia. Saúde e sustento são ativos que a CSN certamente não vai dispensar.

Fonte: Época Negócios