Com queda, frete perde relevância em negociação de preço do minério

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Responsável pela ruptura do sistema de benchmark no mercado de minério de ferro em 2008, o custo do frete marítimo perdeu importância após a crise mundial e a expectativa é de que o item influencie pouco as negociações de preço este ano.

Em meados de 2008, no auge do ciclo de aquecimento da demanda mundial por minério de ferro, o frete chegou a responder por quase 80% do preço final do insumo vendido pela Vale para siderúrgicas chinesas. Hoje, esse porcentual caiu pela metade e gira na casa dos 40%.

“A oferta de navios agora é muito grande. Não acho que esse será mais um fator decisório para as negociações”, avaliou o Gilberto Cardoso, analista da Banif Investment Banking. Atualmente, o frete Brasil/China, uma viagem com duração de 45 dias, gira na casa dos US$ 30,00 por tonelada.

No inicio de 2009, quando a crise atingiu forte o setor, o preço bateu na mínima de US$ 7,00. Cenário bem diferente do vivido em meados de 2008, durante o auge do ciclo de crescimento. Na época, o preço do frete alcançou os US$ 107,00 por tonelada.

Com o custo do transporte tendo um peso tão relevante no valor do produto final, as concorrentes australianas passaram a utilizar a proximidade com o mercado chinês – maior comprador mundial de minério de ferro – como um fator de competitividade e, pela primeira vez, não acompanharam o porcentual de reajuste fechado pela Vale.

A estratégia permitiu as australianas obterem um preço mais elevado para seus produtos. Na época, a diferença entre o custo do Brasil/China e Austrália/China chegou a US$ 62,00 por tonelada. Hoje, está na casa dos US$ 16,00, bem próximo ao patamar histórico, que varia entre US$ 15,00 e US$ 20,00.

O analista do Banco do Brasil, Antônio Emílio Bittencourt Ruiz, descarta uma volta do frete para os patamares de 2008 no médio prazo. “Em 2008, o cenário era bem diferente, com as empresas anunciando projetos de expansão e operando fábricas a pleno vapor. O frete respondeu muito a esse cenário”, afirma.

O analista observa ainda que a Vale hoje adotou uma estratégia que a deixa menos vulnerável as oscilações nos preços dos fretes. Além de investir em frotas próprias, com a construção de super graneleiros, a mineradora brasileira decidiu ainda instalar centros de distribuição na Ásia para facilitar suas atividades comerciais.

Para Gilberto Cardoso, do Banif, o que deve balizar as negociações de preço em 2010 será o cenário de demanda crescente por aço no mundo. O executivo ressalta que todas as commodities negociadas em bolsas de mercadorias e futuros se apreciaram nos últimos meses, o que dá espaço para as mineradoras brigarem por um aumento de preços também para os contratos de longo prazo de fornecimento de minério de ferro, que tem seus valores reajustados anualmente.

A alta no preço do produto no mercado à vista reforçou no mercado financeiro as apostas em torno de uma alta de 15% a 20% no preço do minério. Nos últimos dias, o cenário positivo para o setor manteve as ações da Vale no centro das atenções dos investidores, especialmente dos estrangeiros.

Outro ponto que reforça a perspectiva de recomposição para o preço do minério, na avaliação de Cardoso, é a desvalorização do dólar frente a cesta de moedas internacionais. “A debilidade do dólar frente as outras moedas é outro ponto que deve ser colocado na mesa de negociação. Além da queda no preço real, houve ainda uma perda com o câmbio”, conclui.