Alta do minério spot pode pressionar chineses a aceitar contratos

O aumento do preço do minério de ferro no mercado à vista na China deve pressionar as siderúrgicas chinesas a aceitarem os contratos anuais de preço firmados entre as mineradoras – Vale, BHP e Rio Tinto – e usinas da Europa, Japão e Coreia do Sul, que fixaram queda de 28% para o minério fino no início de junho.

Até o momento, os chineses ainda não aceitaram o acordo e pedem um reajuste negativo de pelo menos 40%. No entanto, a alta dos preços spot na China também oferece um risco para a Vale porque pode incentivar os produtores locais a retomar sua produção própria, tomando mercado do minério brasileiro.

A China aumentou suas compras no mercado à vista nos últimos meses, se beneficiando de preços mais baixos que os contratos. No entanto, os preços à vista estão subindo rapidamente – desde março, as cotações passaram de US$ 62,50 para os atuais US$ 81,50 por tonelada no mercado spot chinês, alta de quase 30%, segundo dados da Modal Asset. A migração crescente das usinas para o mercado à vista contribuiu para a valorização, assim como a redução dos estoques e o aumento da demanda no país. No benchmark, em contrapartida, o preço da Vale está em cerca de US$ 95 por tonelada (incluindo o frete de US$ 40), bastante próximo do spot.

“Os preços do mercado spot estão ficando menos vantajosos em comparação com os contratos”, disse o analista da Modal Asset, Eduardo Roche. Segundo ele, isso poderá levar as siderúrgicas chinesas a optarem pelos contratos de longo prazo, mesmo que uma parte dos pedidos permaneça no mercado spot. Algumas empresas que possuem contratos de fornecimento de minério que ultrapassem as datas de hoje (30 de junho) e 30 de setembro sem ser renovados terão os contratos anulados, de acordo com um relatório do Deutsche Bank publicado em maio, após conversa com a mineradora Rio Tinto. Este fator é mais um ponto de pressão sobre os chineses, e pode funcionar como um catalisador para a tomada de decisão.

Na semana passada, o presidente da Vale, Roger Agnelli, disse que a Vale não determina uma data limite para os contratos. “Não temos um prazo, talvez os australianos tenham. Na China, é um entendimento cliente a cliente, atendendo o interesse mútuo das duas partes”, disse. No Japão, a companhia tem contratos até setembro, mas pode trabalhar com preços provisórios a partir desta data, segundo o executivo. “Nós não queremos de forma nenhuma deixar de dar segurança para nossos clientes de que vai ter minério”, disse. Para o analista do banco Sicredi, Carlos Kochenborger, é possível que os chineses consigam obter negociações de preço mais frequentes do que as anuais.

Mesmo assim, o analista acredita que o principal ativo das mineradoras na negociação com os chineses é a garantia de fornecimento e a qualidade de minério, que é muito relevante para as siderúrgicas locais de grande porte. “Por uma pequena diferença de preço, as chinesas podem considerar vantajoso aceitar os contratos”, afirmou. Apesar destes aspectos favoráveis, a alta no spot também traz ameaças para a Vale porque poderá estimular o aumento da produção chinesa de minério. Neste ano, a Vale conseguiu garantir suas vendas de minério na China justamente devido à queda da produção local do insumo. A forte redução dos preços do frete ajudou a companhia neste sentido porque tornou a exportação mais barata. “A alta interna de preços pode levar as mineradoras locais a tomarem mercado da Vale”, disse o analista da Link Investimentos, Leonardo Alves.

Outro ponto negativo para a mineradora é a recente alta dos preços do frete, que tornam a companhia menos competitiva em comparação com seus concorrentes australianos, muito mais próximos da China. Se nos últimos anos a China já era muito importante para o setor, esse mercado ganhou ainda mais relevância no atual cenário de crise por ser a única região que apresenta crescimento na produção de aço. Seu poder de barganha sobre as mineradoras cresceu de forma exponencial nos últimos meses. Uma evidência disso é o aumento da fatia da China nos embarques da Vale, que passou de 33% no primeiro trimestre de 2008 para 66,3% no primeiro trimestre de 2009. Somente a Ásia respondeu por 81,7% das vendas de minério de ferro da empresa de janeiro a março deste ano, porcentual bem acima dos 49,8% verificados no igual período do ano passado.

A imprensa chinesa informou em meados deste mês que algumas siderúrgicas da província de Shanxi já assinaram seus próprios contratos com as mineradoras. A Associação de Ferro e Aço da China (Cisa, na sigla em inglês) orientou seus membros, a maior parte deles grandes siderúrgicas controladas pelo governo, a não fechar acordos diretamente com as mineradoras, mas resta saber se a estratégia de comprar à vista continuará vantajosa para estas empresas no longo prazo. Segundo analistas, a migração para o mercado à vista é vista com cautela porque diminui a previsibilidade de receita das mineradoras e siderúrgicas